Letras Russas (Parte 2)

A TERRA INCÓGNITA DAS LETRAS RUSSAS (parte 2)

Oleg Almeida

dostoievskiFiódor Dostoiévski… É difícil encontrar neste mundo uma pessoa instruída que nunca tenha ouvido falar dele. Aliás, a vida desse escritor é por si só um verdadeiro romance! Fidalgo e militar de carreira, Dostoiévski obteve sucesso antes dos 30 anos, graças a suas obras de estilo romântico (Gente pobre e Noites brancas que seguiam, ao mesmo tempo, as pistas de Púchkin e Gógol), mas, preso como livre-pensador e condenado a trabalhos forçados, viu sua rápida ascensão brutalmente interrompida; voltando, dez anos mais tarde, do exílio siberiano, criou uma série de romances realistas que lhe proporcionaram notável popularidade na terra natal e muito além das suas fronteiras. Intransponível abismo entre os ricos e os pobres; impacto destrutivo dos vícios de qualquer natureza sobre a personalidade humana; crueza dos usos e costumes presidiários na Rússia considerada, na época dostoievskiana, uma “cadeia dos povos”; drama interior de um assassino que, cometendo um crime bárbaro, consegue esquivar-se da perseguição policial, mas acaba punido pela sua própria consciência; destino trágico de um “humilde de espírito” que se depara com as torpezas do ambiente burguês e, pouco a pouco, sucumbe a elas; acirrado conflito das antigas virtudes cristãs e dos pecados que traz a modernidade – esses temas são abordados, com uma mestria impressionante, nos livros Humilhados e ofendidos, O jogador, Memórias da Casa dos mortos, Crime e castigo, O idiota e Os irmãos Karamázov que até hoje atraem milhões de leitores. As profecias de Dostoiévski, em especial aquelas que se referem à degradação moral da humanidade com o aumento de seu bem-estar material, de início atribuídas à sua fantasia mórbida, mas plenamente confirmadas no decorrer do século XX abundante em guerras e ditaduras sangrentas, renderam-lhe a fama de um visionário isento de erros. Mesmo quem discordar desse endeusamento póstumo de Dostoiévski, alegando ter sido um homem cheio de imperfeições, apaixonado por jogos de azar, instável nas relações afetivas e, ainda por cima, conservador rematado, reconhecerá que, se ele não tivesse existido, os rumos de toda a cultura ocidental seriam outros.
Rival de Dostoiévski no campo literário, Ivan Turguênevturgenev era seu antípoda mesmo na vida cotidiana. Provinha de uma família abastada e, ao contrário de seu confrade coberto de dívidas e atormentado por credores, desconhecia a necessidade de misturar a arte e o ganha-pão, ou seja, de escrever por dinheiro. Morava ora na França ora na Alemanha, observando a Rússia de longe (chegou, inclusive, a brigar com Dostoiévski que o aconselhara um dia a comprar um telescópio para melhor enxergar os problemas da pátria), e essa posição de observador distante e imparcial ajudou-o na criação de obras bem diferentes das dostoievskianas, mas não menos significativas. Os textos de Dostoiévski são graves e tristes, em sua maioria perturbadores, não raro sinistros; os de Turguênev são líricos e serenos, como se um discreto clarão os iluminasse por dentro, racionais e harmônicos. A prosa de Dostoiévski é caudalosa, saturada de personagens importantes e dispensáveis, repleta de longos diálogos e descrições pormenorizadas; a de Turguênev condensa-se em volta de poucos protagonistas que falam e agem de maneira a ficarem eternizados na mente de gerações inteiras. Sempre exposto às dificuldades financeiras e pressionado por seus editores, Dostoiévski escrevia rápido, literalmente ao correr da pena, utilizava-se, como no caso de O jogador que foi redigido em cerca de três semanas, da taquigrafia – daí uma porção de inimitáveis asperezas que emparelham seu estilo a um diamante bruto, valorizado em função de suas qualidades naturais; Turguênev, que não dependia da conjuntura editorial, esmerava-se em trabalhar cada faceta de suas joias verbais, polia cada frase até um brilho quase ofuscante, e isso lhe conferiu, a par de seu amigo Flaubert, a reputação de um dos marcantes estilistas da literatura universal. Em resumo, os livros de Dostoiévski se assemelham às grandiosas sinfonias clássicas que lotam enormes salas e arrebatam multidões com sua vertiginosa potência, e os de Turguênev, àquelas suaves melodias de câmara que, tocadas em surdina, despertam no coração do ouvinte sentimentos de igual intensidade, mas abrandados e refinados pelo tom intimista do autor. Como se sabe, em matéria de gosto não há discussão. Dessa forma, seria interessante alternar as leituras de O idiota e Os irmãos Karamázov com as de O primeiro amor e Pais e filhos: as diferenças de dois mestres russos revelam-se neles com toda a clareza.
Se a poesia da Rússia alcança seu apogeu expressivo nas obras de Púchkin, a prosa russa chega ao máximo da perfeição nos escritos de Lev Tolstoi. Sua biografia também pode parecer aberrante: conde e proprietário rural, dono de uma vultosa fortuna, Tolstoi andava descalço, deixava a barba crescer e usava roupas de camponês no intuito de aproximar-se, ao menos ilusoriamente, do povo necessitado; ademais, era tão meticuloso em cumprir os preceitos religiosos, martirizando-se por ter matado um mosquito que lhe pousou no braço, que Lênin o rotulou, num dos seus artigos políticos, de “fazendeiro pregando o Evangelho”. Contudo, seus romances (Guerra e paz, Anna Karênina, Ressurreição) e contos (A morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer, O padre Sêrgui), densos e lúcidos ao extremo, são primorosos em plena acepção desta palavra. Tolstoi se distanciou do cortante psicologismo de Dostoiévski, bem como do meigo lirismo de Turguênev, para pintar todas as dimensões e nuanças da vida humana com largas pinceladas épicas, sem poupar tintas nem restringir o tamanho das telas. Mesmo se não tivesse escrito nada além de Guerra e paz, colossal panorama da Rússia em princípios do século XIX em que relatou os horrores da guerra contra Napoleão em paralelo à história de várias pessoas e famílias diretamente envolvidas nela, teria imortalizado seu nome, ombreando com Homero, Cervantes e Goethe. Mas construiu ainda uma extensa teoria de “resistência pacífica ao mal”, assimilada e levada adiante por Martin Luther King, Mahatma Gandhi e outros defensores dos ideais humanistas.
É claro que nossa excursão através da imensa terra incógnita das letras russas ainda está longe do fim. Se eu pretendesse escrever toda uma monografia sobre o assunto, mencionaria dezenas de nomes mais ou menos ilustres. Decerto me lembraria de Anton Tchêkhov, cujos contos e peças de teatro surpreendem os leitores e espectadores de hoje com seu caráter atual, embora remontem às últimas décadas do século retrasado; poria em foco Maxim Górki, teórico do chamado “realismo socialista” e fundador da União de Escritores Soviéticos, que Stálin trancou numa gaiola dourada; não me esqueceria de Valéri Briussov, líder dos simbolistas russos, que compôs a poesia mais curta de toda a literatura europeia (“Oh, cobre tuas pernas pálidas!” e ponto final) nem de Vladímir Maiakóvskimayakovski com seu mágico sonho de ficar hibernando mil anos e acordar num esplendoroso futuro, num mundo livre de opressão e hipocrisia, regido pelo amor, transbordante de felicidade (ouçamos novamente Ressuscita-me de Caetano Veloso que adequou sua música à letra do bardo revolucionário). Em termos metafóricos, a literatura russa é um daqueles bravios sertões que se estendem até o horizonte longínquo, mas cativante, onde cada arbusto representa um escritor talentoso e cada ervinha equivale a uma obra digna de ser lida. Os brasileiros dispostos a desbravar suas vastidões e descobrir suas riquezas ocultas precisam ter a perseverança dos antigos bandeirantes que percorreram milhares de léguas em busca de ouro e pedras preciosas, ampliaram e exploraram o território do país que se tornaria, tempos depois, um dos maiores do mundo.
– Acho que vale a pena adentrar esse sertão virtual – encerrei a minha conversa com os universitários. – A viagem pode ser boa mesmo, não pode?
– Ótima, estupenda, superlegal! – Uma saraivada de epítetos veio outra vez de todos os lados. Vi a moça de cabeleira laranja anotar, um por um, os títulos das obras que tinha citado.

Aquele episódio me mostrou que havia muito interesse por livros russos no Brasil, interesse em certo grau inibido pela falta de boas traduções no mercado. Mais tarde, ao falar com vários leitores insatisfeitos, fiquei persuadido disso. Todos eles questionaram a exatidão das numerosas versões portuguesas que foram realizadas com base em anteriores versões inglesas ou francesas e acabaram por se impor como fiéis substitutas dos ilegíveis originais russos. “Confiar numa tradução feita em cima de outra tradução” – disseram-me – “seria o mesmo que vestir roupas de segunda mão e fingir que são novinhas em folha!” Tradutor profissional que sou, não contesto a sua opinião. A fase das traduções indiretas ficou no passado, e isso se percebe, sobretudo, em relação aos idiomas transnacionais e mais ou menos próximos do português. Hoje em dia é quase impossível alguém traduzir, digamos, do alemão por intermédio do espanhol! Entretanto a língua de Púchkin, que não tem nada a ver com a de Camões, é um caso à parte: pouquíssimos brasileiros conhecem a Rússia de perto, e a visão geral de sua cultura limita-se ao frio ártico, à vodca bebida a cântaros e à pungente canção “Olhos negros” que na verdade não é russa e, sim, cigana. Pensei nisso numa manhã de agosto de 2009, quando a assistente editorial da Martin Claret ligou para mim e perguntou se não me apetecia tentar a sorte na área das traduções literárias. “Por que não?” – raciocinei, animado. – “Será que o Brasil também se resume ao samba e à churrascaria? Não, caramba, de jeito nenhum! Terei, pois, montes de estereótipos a desmentir e de lacunas a preencher”. Esse argumento pesou bastante na minha decisão de colaborar com a Martin Claret. E foi assim que minhas primeiras versões de clássicos russos entraram no prelo.

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