Charles Baudelaire

O ALBATROZ

Quem leu as magníficas Flores do Mal certamente se lembra do antológico poema O albatroz. Trata-se nele de uma daquelas aves régias que acompanham os navios em alto mar. Belo e orgulhoso, o albatroz não tem um pingo de prudência e deixa-se apanhar pelos marujos, que o maltratam sem dó nem piedade:

… Uns metem no seu bico o fumo, os outros, rindo,
Imitam a mancar o trôpego voador.

Onde estão sua elegância e seu brio? Fora do espaço aéreo, o albatroz fica débil e desajeitado, rodopiando nas sujas pranchas do convés, sob uma cruel saraivada de palavrões e risadas. O desfecho do poema é imprevisto. O autor não se conforma com o desastre deste “soberano do azul” e exclama indignado:

O vate é semelhante ao príncipe dos ares
Que escapa à flecha e toma o temporal por lar;
Entanto cá no chão, no meio dos vulgares,
As asas de gigante impedem-no de andar.

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“As Flores do Mal”, tradução de Mario Laranjeira.

 

É ele mesmo, o poeta menosprezado pelos contemporâneos e idolatrado, tal e qual tantos outros artistas, depois de morto ou, sabe-se lá, em função disso, cujo alter ego se vislumbra na gloriosa ruína da ave arrancada de seu ambiente natural. É ele mesmo, Charles Pierre Baudelaire, cujo nome dispensa ociosos comentários

Gustave_Courbet_Retrato de Baudelaire

Retrato de Charles Baudelaire por Gustave Courbet, 1849

 

A vida de Baudelaire foi uma série ininterrupta de desventuras e decepções, ou melhor, uma só decepção contínua. Nascido numa família rica e influente (seu pai dirigira, no tempo de Napoleão, uma das repartições do Senado Imperial), ele podia alcançar o ápice da carreira pública, tornando-se político ou burocrata de alto nível, mas preferiu a poesia, ocupação que boa parte da humanidade considera, desde que o mundo é mundo, se não totalmente inútil, ao menos desprovida de qualquer seriedade. Estava muito apegado ao pai, do qual herdara, aliás, o interesse pelas artes, mas perdeu-o, ainda em criança, e teve de conviver com o padrasto, oficial do exército francês, que chegou a mandá-lo, após inúmeras brigas, para as Índias, na esperança de que, afastado da boemia urbana, o rebelde enteado abrisse mão de seus devaneios artísticos, sem antever que o périplo lhe inspiraria, entre outros, o supracitado poema. Gostava da vida folgada e tinha, diga-se de passagem, condições de levá-la, mas, revoltados com suas gastanças irresponsáveis, os familiares decidiram colocar todos os bens dele sob a tutela cautelar, de modo que, em lugar da vultosa herança paterna que esbanjava a torto e a direito, o poeta ficou com a humilhante mesada de 200 francos, trocando seus ternos de dândi por uma blusa de proletário e comportando-se, às vezes, como um morador de rua. Lutou nas barricadas de Paris durante a insurreição popular de 1848, mas esta foi truculentamente reprimida pelo governo burguês. Apaixonou-se pela Vênus Negra, jovem mulata que fazia pequenos papéis nos teatros parisienses, mas o relacionamento do casal transcorreu cheio de escândalos e traições, destruiu a ilusão de Baudelaire acerca do gênero feminino e, como se devia esperar, resultou numa dolorosa ruptura. Apesar das imensas dificuldades financeiras, publicou em 1857 sua obra-prima, As flores do Mal, mas o livro, além de aniquilado pela imprensa – “… é um hospital aberto a todas as demências do espírito, a todas as podridões do coração; ainda seria bem se fosse para curá-las, mas elas são incuráveis”, escreveu sobre ele um renomado jornalista –, enfrentou uma ferrenha perseguição judicial, sendo o autor multado por “ofensa à moral religiosa” e “ultraje aos bons costumes”, e obrigado a resignar-se à supressão de alguns textos que os magistrados tinham achado obscenos: sentença revogada apenas em 1949, graças à insistência da Sociedade dos Homens de Letras que não se esquecera de seu sócio polêmico. Tentou candidatar-se à tradicionalíssima Academia Francesa, mas a vaga que disputava acabou ganha por um aristocrata cujos talentos literários eram bem questionáveis. Já no final da vida, desesperado com a insensibilidade dos leitores, viciado em ópio e álcool, acometido pela temida e incurável na época sífilis, sem um tostão no bolso, viajou para a Bélgica, pensando que lá conseguiria lançar suas obras completas e, talvez, abrandar a miséria diariamente aturada, mas os belgas se mostraram, em várias ocasiões, mais insensíveis ainda que os franceses. Emudeceu, ficou hemiplégico em decorrência da horrível doença e faleceu, aos 46 anos, nos braços de sua velha mãe. Havia-lhe perdoado o segundo casamento, bem como todas as desavenças passadas; quem sabe se perdoara, da mesma maneira, os críticos ignorantes e os juízes faltos de compaixão. O poeta foi enterrado na presença de uns poucos amigos, igual a um pobre anônimo. Caído dos céus cobiçados, o albatroz se afundou no mar da estúpida indiferença humana.

 

Cenotáfio de Baudelaire

Cenotáfio de Charles Baudelaire no cemitério Montparnasse em Paris

O que aconteceu depois da precoce e trágica morte de Baudelaire? Aquilo que costuma acontecer, como que por escárnio de Nêmesis, com a maioria dos gênios confinados nos estreitos moldes da sociedade consumista, que não lhes dá nenhuma atenção em vida e tende a transformá-los postumamente em objetos de culto, isto é, de consumo. Assim se explicam tanto as colossais tiragens das obras baudelairianas editadas, inclusive em formato de luxo, no século XX, quanto o presunçoso monumento erguido no túmulo do poeta por ordem do Ministro das Belas-Artes da França. Pois é, diria o próprio Baudelaire com seu sarcasmo habitual, “a poesia é uma das artes que mais rendem, mas, ao mesmo tempo, uma espécie de investimento em cujos lucros (…) só se toca tarde”. Avaliam-se tarde, sim, as riquezas espirituais, porém tarde e nunca, reconhecimento eterno e glamour instantâneo, são coisas distintas. Dorme em paz, grande poeta maldito; é sorte nossa que teu legado não se limite, nos dias de hoje, aos salões e academias de letras, embora não sejam numerosas as pessoas que possam repetir, ao lerem esses teus versos amargos, perturbadores e deslumbrantes, as palavras de Carlos Pena Filho afirmando:

… que existe alguém
no mundo, cem
anos após,
que não vaiou
e nem magoou
teu albatroz.

 Oleg Almeida

À uma hora da madrugada

Enfim, sozinho! Não se ouve mais nada, salvo o rodar de uns fiacres tardios e exaustos. Durante algumas horas, possuiremos o silêncio, senão o repouso. Enfim! A tirania da cara humana desapareceu, e agora eu vou sofrer só por mim mesmo.

Enfim me será permitido relaxar num banho de trevas! Primeiro um duplo giro de chave na fechadura. Parece-me que ele aumentará minha solidão e fortificará as barricadas que me separam atualmente do mundo.

Horrível vida! Horrível cidade! Recapitulemos o dia: ter visto vários homens de letras, um dos quais me perguntou se dava para ir à Rússia por terra (não há dúvida de que ele tomava a Rússia por uma ilha); ter discutido generosamente com o diretor de uma revista que a cada objeção respondia: “Nosso negócio aqui é honesto”, o que implicava que todos os outros jornais fossem redigidos pelos velhacos; ter cumpri­mentado umas vinte pessoas, inclusive quinze desconhecidas; ter distribuído apertos de mão na mesma proporção, e isso sem ter comprado, por cautela, um par de luvas; ter subido, para matar o tempo durante um aguaceiro, ao quarto de uma rapariga que me pediu para lhe desenhar um traje de Vênusa; ter cortejado um diretor de teatro, que disse, mandando-me embora: “Você faria, talvez, bem em recorrer a Z…; é o mais lerdo, o mais tolo e o mais célebre de todos os meus autores; com ele você poderia, talvez, conseguir alguma coisa. Veja-o, e depois nós veremos”; ter-me gabado (para quê?) de várias vilezas que jamais praticara, e covardemente negado umas faltas que cometera com alegria, delito de fanfarrice, crime de respeito humano; ter recusado um serviço fácil a um amigo e dado referências escritas a um rematado patife; ufa, será tudo?

Descontente de todos e descontente de mim, gostaria de redimir-me e orgulhar-me um pouco no silêncio e na solidão da noite. Almas dos que amei, almas dos que cantei, deem-me forças, apoiem-me, afastem de mim a mentira e os miasmas corruptores do mundo, e vós, Senhor meu Deus, concedei-me a graça de produzir uns bons versos que me provem a mim mesmo que não sou o último dos homens nem inferior àqueles que estou desprezando!

(Charles Baudelaire. O esplim de Paris: pequenos poemas em prosa, e outros escritos. Tradução do francês, prefácio e cronologia biográfica do autor por Oleg Almeida. Martin Claret: São Paulo, 2010; p. 35-36).

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