Alice no País das Maravilhas: Uma crítica à Inglaterra vitoriana

Embora muitos ainda considerem o livro Alice no País das Maravilhas infantil, ele não é apenas um livro para criança. (A verdade é que é muito difícil classificar um livro como para o público infantojuvenil ou para o público adulto, mas, na data de seu lançamento, seu público principal era o infantil, sem dúvida.) O que talvez a maioria das pessoas não saiba é o porquê desse livro ultrapassar a sua classificação inicial e ter se tornado um clássico da literatura mundial, mais apreciado a cada ano que passa, completando agora 150 anos.

A história de Alice sempre mCharles Dodgsone incomodou. Parecia que havia “algo mais” ali. Esse sentimento me levou a estudá-la, mostrando no meu trabalho de graduação que este livro tem uma mensagem que extrapola o significado da história aparentemente sem muito sentido, com coisas malucas e diálogos que não seguem a estrutura a qual estamos acostumados. Há muito mais em Alice do que uma primeira leitura possa mostrar. Os leitores que quiserem se deter na história narrada de uma menina entediada que vai atrás de um coelho branco e se envolve em uma aventura com personagens extraordinários encontrará em Alice um ótima escolha. Mas aqueles leitores que quiserem ir além das aparências e se aventurarem, de fato, num mundo que tem muito para contar sobre o ser humano e sua condição não se decepcionarão em nada com a história de Lewis Carroll.

Entender Alice é compreender a Inglaterra vitoriana. Em poucas palavras, podemos dizer que era uma época conservadora, de princípios morais rígidos, ao mesmo tempo em que era inovadora no campo tecnológico, o que levou à Revolução Industrial e a mudanças sociais com o aparecimento da burguesia. Nesse cenário, surgiu uma literatura com duas características principais: ou era pedagógica – no sentindo claro de ensinar uma lição ao seu público – ou era moralizante – no sentido de mostrar os problemas sociais que precisavam ser tratados. É desse período Charles Dickens, um dos autores mais importantes da prosa vitoriana, que, por meio de suas obras, criticou grande parte das instituições públicas da Inglaterra.

Olhando para a obra de Lewis Carroll percebemos que ela destoa do que estava sendo produzido por seus contemporâneos. Ela não apresenta nem o caráter pedagógico e muito menos o moralizante. É aí que encontramos a crítica de Carroll à sociedade de seu tempo – em seu livro, sua personagem é livre para escolher a aventura. Alice começa a história entediada; vai atrás do diferente, do interessante, presente no personagem do Coelho Branco (rompendo com os padrões esperados para as crianças vitorianas); enfrenta figuras que representam autoridade (como a Rainha de Copas); volta para a sua realidade e não é punida pela ousadia de se aventurar. Vale lembrar que na sociedade vitoriana a punição era uma realidade constante tanto para crianças quanto para adultos, que tinham um padrão moral puritano alto para ser seguido se quisessem ser cidadãos-modelo do Império Britânico. Esperava-se que a ousadia, o buscar o diferente, fosse punido.

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Lewis Carroll rompe o modelo de literatura praticado em seu tempo não só por meio da sua narrativa que quebra o padrão, como também usando o nonsense, uma crítica ao sentido único, ao racionalismo, àquilo que julgamos ser normal. Carroll nos faz questionar o padrão por meio da linguagem. Daquilo que parece o caos emerge um sentido possível, construído pelo leitor, não imposto a ele. O nonsense representa na linguagem a libertação da opressão de um discurso fixo, monótono, padrão. Além disso, Carroll faz o que era inimaginável para a sua época: uma crítica à Rainha Vitória. A Inglaterra já era uma monarquia parlamentarista, o que significa dizer que era (e ainda é) governada pelo primeiro-ministro e pelo parlamento, sendo a rainha uma figura representativa de poder. A rainha Vitória foi uma soberana muito popular, por isso esse período recebe o nome de vitorianismo. Portanto, fazer críticas diretas à rainha era algo impensável. Mas Carroll faz justamente isso por meio da figura Rainha de Copas, que, dentro do sistema “maluco” que é o País das Maravilhas, quase não tem poder de decisão, como a Rainha Vitória dentro da monarquia parlamentarista. Os seres mágicos a temem, mas as suas ordens de decapitação nunca são cumpridas. E a Rainha de Copas, em vários momentos da narrativa, é chamada apenas de rainha, reforçando a possibilidade de interpretação do termo “Rainha” como se referindo também à rainha Vitória.

Processed with VSCOcam with 6 presetAssim, podemos dizer que Alice não é uma obra escrita com o propósito de moralizar e manipular o leitor, levando-o a acreditar que certo padrão é correto e aceitável, ou que certas atitudes devem ser realizadas. Nesse ponto, notamos claramente a influência do nonsense, que subverte um sentido único e contesta a divisão do mundo em dois lados fixos, instaurando um sentido paralelo, que esconde, atrás da loucura e da irracionalidade, a sua crítica. Por fugir desse padrão moralizante e pedagógico, Alice no País das Maravilhas pode ser lido como uma crítica ao vitorianismo opressor, sendo o nonsense uma crítica à realidade rígida.

É no desvio do modelo e no estranhamento, que traz para o leitor uma nova possibilidade de mundo, que o livro de Carroll é um convite à reflexão. Entre você também nessa aventura e, junto com Alice, descubra um mundo muito mais complexo do que você imaginava!

 

Bruna Perrella Brito trabalha como preparadora de texto no departamento de Literatura Infantojuvenil e Projetos Especiais da editora FTD. É formada em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e cursa especialização em Educação Infantil.

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